Vinho Tradicional, Orgânico ou Biodinâmico? Esclareça suas dúvidas.
Este posts presta-se apenas para esclarecer as diferenças entre estes três sistemas de produção.
O método tradicional é o mais comum, o modo antigo, onde os vinicultores usam todos os recursos para produzir um bom vinho. Eperamos que usem os recursos químicos com sabedoria. É a melhor forma de reagir aos caprichos da natureza.
O vinho orgânico está em alta e exige que o produtor use apenas métodos naturais de produção, sem a intervenção de fertilizantes, agrotóxicos ou qualquer outra ajuda química. Para ter um selo de vinho “orgânico”, as restrições são muito duras e os produtores acabam desistindo do método e do selo, ao longo da produção. Aqui um bom vídeo da Nova Zelândia sobre vinhos orgânicos, além de interessante, vai forçar o seu inglês:
O vinho biodinâmico não tem nada haver com o orgânico e está associado a cuidados especiais com a saúde da vinha através dos ciclos da Lua, com aplicações de “sílica” nas vinhas (um tipo de sal) e muitos outros cuidados estranhos. Tratando a vinha como um organismo vivo, quase como uma pessoa, em contacto com a natureza. Foi criada por Rudolf Steiner em 1924. Um produtor biodinâmico de sucesso é Alvaro Palácios, o grande responsável pelo desenvolvimento da região do Priorato na Espanha. Eu não sou especialista, mas pelo que estudei na técnica biodinâmica o produtor usa recursos da natureza para tratar e cuidar da videira, como por exemplo plantar rosas entre as videiras para servir de alarme contra pragas. Colheita manual e uso de animais são práticas desse sistema, que parece muito antigo, mas na verdade hoje é o mais moderno.
Veja aqui um depoimento sobre o assunto:
Vou pedir ajuda a alguns especialistas para conferir se expiquei direito essas diferenças.
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Aqui a contribuição voluntária do Didú:






















Paulo,
O Nosso Vinho virando espaço para debate a respeito de sistemas de produção e preservação do planeta…muito bom, rsrs. Como agrônomo de formação, vou dar minha opinião. Que é necessário preservar o planeta e que excessos foram e são feitos, não há dúvida e duvido que alguém discorde. Que as pessoas consomem produtos cada vez mais de acordo com suas filosofias de vida, também. À medida que a renda aumenta, se alimentar (de bebida ou comida) tem menos a ver com a necessidade fisiológica e mais a ver com aquilo que se harmoniza com sua forma de ver as coisas e viver, e o orgânico e o biodinâmico são exemplos. E isso é mercado (obs: não sei – e talvez fosse interesse abordar – se há algum estudo comparando aroma e paladar de vinhos convencionais x orgânicos x biodinâmicos).
Mas é preciso lembrar que a produtividade do orgânico é bem menor do que o convencional, na maioria dos casos. Isso quer dizer que se o mundo virasse orgânico, seria necessário ter mais áreas para produção, ainda mais considerando que a população da Terra cresce e que vai consumir mais. E isso não se alinha a preservação do planeta, certo? Não há ainda tecnologia suficiente para ter alta produtividade com orgânicos, de forma generalizada. Claro que haverá mercado para orgânicos e afins, e crescente, mas não é ainda uma solução generalizada.
O outro ponto é que há um preconceito com o uso de agrotóxicos, a começar pelo nome – o termo técnico correto é defensivo agrícola. Claro que eu prefiro consumir produtos com menos interferência, mas os períodos de carência existem para garantir que não existam riscos para a saúde. As pessoas associam agrotóxico a veneno, como se tudo que consumíssemos estivesse contaminado. Não é bem assim, apesar de haver excessos, com certeza. Mas é preciso ter isso em mente.
Por fim, há diversos trabalhos mostrando que o risco de contaminação de produções orgânicas com bactérias e fungos potencialmente muito perigosos é muito maior do que em produções convencionais, o que é compreensível. Há, portanto, um potencial trade-off.
Posto isso, é de qualquer forma importante que: a) sejam feitas pesquisas para reduzir o uso de insumos sem comprometer a produtividade (o que demandaria mais áreas) e sem aumentar o risco de doenças; b) seja reforçado o uso consciente de insumos; c) haja engajamento dos consumidores que, ao final, estimulam as mudanças.
Talvez mais importante do que o não-uso de insumos externos seja o uso consciente, harmonizado. Há produtores que fazem um trabalho belíssimo nesse sentido, seus solos têm matéria orgânica cada vez mais alta, a produtividade cresce, e não são orgânicos (não conheço muito a biodinâmica, mas aceito o fato de que nosso conhecimento é limitado e pode haver outros aspectos que condicionam o desenvolvimento das plantas).
Um último ponto: uma das maneiras de reduzir o uso de insumos é através da engenharia genética, da temida transgenia, da qual não iremos fugir. Ela permite criar plantas resistentes a determinadas pragas, ou mais eficientes na absorção de nutrientes, por exemplo. Estamos dispostos? Não há almoço grátis, como dizem os americanos!!!
Mas é isso aí, legal a discussão e parabéns pelo blog, cada vez melhor.
Abraço,
Marcelo
Marcelo, obrigado pela opinião profisisonal que ajuda muito nessa discussão.
Paulo, após o post do Didú pouco tenho a falar do assunto. Só acrescento que o movimento do vinho orgânico é fortíssimo na Alemanha, aliás como um todo, pois até as casas, como em Freiburg recebem uma ajuda do governo para que tenham telhados plantados, justamente visando um consumo menor de energia para mantê-las na temperatura adequada. E o movimento não fica apenas nas moradias, se dissipa para os alimentos, como a carne, o leite, enfim, CHEGA DE AGROTÓXICO.
O vinho como alimento e manifestação cultural de um povo não poderia ser diferente, sendo assim a tendência é de que este tipo de sistema vença. Aliás, já li em algum lugar sobre o “cansaço” da terra em alguns locais produtores na França e Itália, justamente pelo uso excessivo de agrotóxicos.
Também é certo que os vinhos vindos de sistemas, por assim dizer naturais, como o biodinâmico ou o orgânico, por certo apresenta aroma e paladar diferenciados em relação aos produzidos com agrotóxicos. Assim como os alimentos, com agrotóxicos maiores e mais bonitos, mas sem gosto. Os que não usam agrotóxicos são menores, mais feios mas com muito mais sabor e preservando o valor nutricional.
Agora, o movimento, seja biodinâmico ou orgânico é, fundamentalmente, um movimento cultural, ou nos passamos, também a nos preocupar com nossa saúde e com a saúde da natureza ou ficaremos todos doentes. Dinheiro é importante na vida, mas não é tudo.
Também, de certo modo ligado a este movimento está o slow food que começou na Itália, onde, preservam a verdadeira refeição entre amigos e familiares, sem tempo para terminar.
Hoje mesmo postei um assunto que, de certo modo, nos leva a este, a diferença entre os vinhos no Chile e na Argentina. No Chile as pragas são muito mais raras que na Argentina, então existe muito menos correção química na produção dos vinhos.
Peter,
Com comentaristas como você e o Didu eu nem preciso escrever o blog.
Fico com a parte de beber, oK?
Valeu a aula.
Abraços
Paulo
Fica nos vinhos e alimentando este belíssimo blog, tanto no visual quanto no conteúdo.
Veja também estes dois vídeos que fiz com alvaro Spinozza
Paulo amigo, saúde. Como contribuição segue um artigo meu sore o assunto. Bacio.
O fantástico crescimento do interesse por vinhos orgânicos e biodinâmicos no mundo, parece dar sinais de que o ser humano realmente pretende preservar este planeta maravilhoso para seus descendentes. Quando bem feitos, esses vinhos costumam ser mais delicados, mais sutis, apresentam maior tipicidade da variedade e maior retro-gosto.
Até o início do século passado o vinho sempre foi orgânico, pois não havia produtos químicos para se “fertilizar” a terra ou matar pragas e doenças, que eram combatidas com o equilíbrio natural. A humanidade viveu sem produtos químicos na agricultura até a 1ª guerra mundial, quando as indústrias químicas desenvolveram os fertilizantes com sobras de munição, essa é a história contada por um dos grandes produtores biodinâmicos de Bordeaux, Jean-Pierre Amoreau do Château Le Puy, dando conta de que acreditava-se que a guerra duraria muito mais tempo e a indústria química não sabia o que fazer com a enorme quantidade de produtos inorgânicos que sobrara, nasceu assim o fertilizante.
Os fertilizantes realmente funcionaram mas quebraram o equilíbrio orgânico na terra que não respondia mais naturalmente aos ataques de insetos, pragas, fungos, etc., assim a mesma indústria química desenvolveu os defensivos químicos, tornando a agricultura refém de seu negócio.
Um levantamento feito em Bordeaux constatou que os vinhos da região continham cinco mil vezes mais resíduos tóxicos do que a água da cidade! Notícia que circulou timidamente na imprensa mundial.
Um gênio produzindo vinhos.
Um dos mais ardentes defensores da biodinâmica é Nicolas Joly, um gênio produzindo vinhos no Loire. Ele produz o extraordinário Clos de La Coulée de Serrant, um chenin blanc que é tão importante que tem uma Appellation d’Origine Controlée só dele, a AOC Coulée de Serrant, em Savennières no Vale do Loire.
Os vinhos de Joly são uma preciosidade, frescos, amplos, untuosos, com toques tostados, floral, maracujá, amêndoas, marzipan, e que não contam com adição de conservantes! Inacreditável. Nicolas Joly é um dos ícones da biodinâmica, e principal responsável pelo movimento “Renaissence des Appellations” que defende que apenas os vinhos biodinâmicos podem realmente refletir o “terroir” de um lugar. Joly defende que cada vinho é único quando respeita seu “terroir” pois será íntegro.
Para cuidar das vinhas Joly se utiliza do que há na natureza, na seca por exemplo, ele aplica algas marinhas e nas floradas usa arnica, que segundo ele dão melhores brotos. Joly é uma espécie de Galileu do vinho, ele afirma que uma vinha plantada na época certa, o que implica fase de lua em quadraturas astronômicas e direção dos ventos, a vinha nunca fica doente. Ou seja ele está vendo coisas que os comuns não enxergam.
Ele não utiliza tratores em seus domínios pois o peso é excessivo e comprimem em excesso a primeira camada de terra que segundo ele é fundamental na respiração e absorção de todos os elementos do ambiente. Em seus vinhedos, vacas e cachorros de sua propriedade circulam livremente. Joly explica por exemplo que as forças de equilíbrio são as forças da Terra (Dionísio) e do Sol (Apolo), e que deve se respeitar esse movimento, como os antigos faziam.
É um equívoco do homem achar que a força da produção veio da terra apenas e precisa ser reposta em forma de adubos. “O sol é quem alimenta a vinha: 92% do que produz em matéria sólida vem da fotossíntese, da sua capacidade de captar algo intangível, como a luz do sol e seu calor e transformá-los em açúcares, hidrocarbonos e outras matérias.” Nos ensina Joly apaixonadamente.
Esta convicção de que se deve respeitar os elementos do universo fazem Joly proibir a presença de qualquer fator que venha a interferir nesse equilíbrio, coisas como ondas de rádio, de celulares, computadores, satélites podem ter efeito devastador em seu mundo. “O homem não vê que está destruindo a sintonia entre as coisas da terra e fica se perguntando, porque será que o clima está tão louco?”. Explica Joly.
“Meu vinho é trabalhado no vinhedo. Quando as uvas chegam na adega, não tenho que fazer nada. Elas estão tão saudáveis que o vinho se faz sozinho. Faço a prensa lentamente, durante 3 a 4 horas, coloco o vinho em barricas de 600 litros, que já têm uns 20 anos de idade, onde fermentam durante uns 3 meses.,” diz ele que se considera um “assistente da natureza” e abomina ser tratado como um “winemaker“. “Um homem não pode fazer vinho. Quem faz o vinho é a uva. Devemos ajudar a natureza para que ela trabalhe sozinha. Temos que buscar um retorno ao sabor da terra. A vinha deve carregar em sua fruta a imagem mais fiel do lugar onde mora. Esta é a origem das Appellations d’Origine Controlées”,
As pessoas céticas em relação à Biodinâmica costumam dizer que se trata de “religião” mas não sabem explicar por que uma videira podada em lua minguante não cresce, enquanto a que foi podada em lua cheia florece com vigor, mas isso é um fato, ou por que um vinho engarrafado em lua cheia fica em suspensão…
O que é absolutamente maravilhoso desses ser humanos é que eles produzem vinhos simplesmente extraordinários em total equilíbrio com a natureza, ou seja o planeta continuaria intacto se dependesse de pessoas como Nicolas Joly.
No Brasil vale ressaltar, o primeiro produtor a lançar vinhos orgânicos foi Juan Carrau em 1977 com seu Cabernet Sauvignon que abriu caminho para a “linha verde” que hoje já conta também com um Guewurztraminer.
Os tipos de agricultura que preservam o solo e a integridade da videira:
“Raisonée” ou sustentável, integrada. É o primeiro passo em defesa na busca de preservação do solo, nela, procura-se ao máximo respeitar a videira e seu meio ambiente, mas se o nível de “tolerância” é ultrapassado em caso de controle de pestes ou doenças, lançam mão de produtos químicos. Não há um órgão regulamentador ou fiscalizador.
Orgânico ou biológico, como se fala na Europa, é aquele produzido em um vinhedo que não usou em nenhuma etapa de sua produção, fungicidas, herbicidas, pesticidas ou qualquer aditivo químico ao produto. Seu manejo, como antigamente se fazia, se baseia em produtos naturais e em equilíbrio biológico, para impedir o surgimento de insetos, fungos ervas daninhas e outras variedades de enfermidades da vinha. Há órgãos certificadores e fiscalizadores de todo o processo.
Biodinâmico Busca os conhecimentos de antroposofia de Rudolf Steiner que inclui toda a dinâmica, ou energia envolvida na vida.
Consideram o ambiente como um todo, valorizando o equilíbrio da vida em movimento, olhando a vida em harmonia com o universo no sentido das influências energéticas do cosmos. Utiliza-se de preparados em bases de dinamização da homeopatia,com diluições de compostos e preparados diversos de ervas para tratamento das videiras.
Os mais radicais se qualificam de “vinhos naturais” não permitindo nenhum recurso externo durante a fermentação, desinfecção, estabilização, filtração ou adição de anidrido sulfuroso.
Naturais: A cultura é sempre orgância, não necessáriamente biodinâmica, mas não aceitam SO2, em nenhuma quantidade.
Didú Russo
Didu, você deu uma aula, uma verdadeira reportagem.
Muito obrigado. e forte abraço
Paulo
Visitem o site do Didu em
http://www.didu.com.br
Os vídeos foram incorporados ao Post
Olá Paulo,
Muito legal este post, vc está de parabéns, não só pelo post mas pelo excelente trabalho que tem feito com o Nosso Vinho.
Um abraço!
Alexandre.
Obrigado Alexandre.