O Bordô que nunca sai de moda

O amigo Pedro Assumpção é um bom entendedor de vinhos, mais que isso, o Pedro sabe viver e conhecer as regiões vinícolas. Ele me ofereceu uma carta que escreveu a um casal de amigos. Nesta carta ele descreve a região de Bordeaux e monta um incrível roteiro de viagem. Conversamos ao telefone e eu disse a ele que iria editar a carta, porque a linguagem não caberia aqui no blog.

 

Do ponto de vista de um turista amante do vinho, a região de Bordeaux tem 3 grandes pólos: 1) a cidade propriamente dita, que desde o século XVIII é uma das mais prósperas da França – foi um grande porto de produtos agricolas, na beira do rio Garonne; 2) a cidade de St Emilion na margem direita do rio Dordogne (chamada de right bank) e 3) a sequência de cidadezinhas na margem esquerda do rio Gironde (região conhecida como left bank), onde se encontram alguns dos grandes chateaux, a começar pelos vilarejos de Margaux, St Julien, Paulliac, St Estephe, todas na beira de uma estrada liiiinda chamada D2.

Bordeaux

 

Em St Emilion, o Hostellerie de Plaisance (www.hostellerieplaisance.com) um relais&chateaux maravilhoso, encravado nas pedras e no pé da torre da igreja-ícone desta cidadezinha medieval. Este hotel pertence ao dono do Chateau Pavie, um dos grandes vinhos de St Emilion, que além dos quartos do hotel na cidade, tem quartos num anexo dentro do próprio vinhedo (a 1 km da cidade) muito charmoso e romântico, mas meio isolado…….Se vocês forem ficar vários dias, vale ficar 1 ou 2 lá, senão peçam os quartos na cidade.

 

Em Paulliac, (a região dos vinhedos mais conhecidos) tem o Cordeillan Bages outro relais&chateaux bem bacana. Este hotel pertence a Jean Michel Cazes, um dos grandes mestres do vinho de lá, proprietário do Chateau Lynch Bages, um vinho bem famoso da região. Para mim, o hotel é menos charmoso que o Hostellerie em St Emilion (e a decoracão dos quartos, meio modernosa, destoa de uma região tão típica) mas tem 2 grandes qualidades: fica na tal D2, a 5 minutos de muitos dos famosos chateaux, uma região muito bonita; e o restaurante do Cordeillan-Bages é um 2 estrelas espetacular (que eu acho que vai ganhar a 3ª estrela muito em breve…), Este restaurante serve uma cozinha francesa bem moderna e surpreendente, parecida com a cozinha moderna espanhola, hoje a melhor do mundo….se vocês quiserem uma experiencia gastronômica interessante (e um pouco cara) vale a pena jantar uma noite lá (especialmente se pedirem o menu degustação). Claro que não preciso dizer que tanto os hoteis, quanto os restaurantes estão sempre cheios e é preciso fazer a reseva com várias semanas de antecedência. Em termos de hospedagem, vale também citar o Hotel Caudalie: meio hotel, meio spa, famoso por uma tal vinoterapia, uma série de tratamentos de beleza a base de vinho (!!!) que vc já deve ter ouvido falar e fica também na regiao de Paulliac; e uma outra experiência – que um dia vou fazer, que é se hospedar num castelo, no caso o Chateau Pichon-Baron Longueville que é um chateau extermamente imponente – entrem no site e vejam a foto (vocês vão vê-lo na beira da D2 se forem para lá) que aluga o castelo inteiro para pequenos grupos (tem 6 quartos e um bosque maravilhoso atrás) a um preço absolutamente acessível (não contem para ninguém…) e é um dos ícones dos vinhedos de Bordeaux.”

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Hotel Cordeillan:  Exibir mapa ampliado

Château Cordeillan-Bages:  Exibir mapa ampliado

Chateau Pichon-Baron Longueville: Exibir mapa ampliado

Agora, se eu fosse vocês, eu faria o seguinte: Ficaria no Hostellerie em St Emilion, sem dúvida. A cidade é linda, tem vários bistros gostosos e a regiao é maravilhosa. Em volta da cidade os vinhedos se sucedem e apesar de muitos não serem tão importantes, vocês vão reconhecer vários nomes. As construções não são tão imponentes como em Paulliac, mas tudo é deslumbrante e muito calmo. Porém, só para constar, St Emilion produz 2 dos maiores vinhos do mundo: Cheval Blanc e Ausonne. Pomerol que também é um vilarejo meio sem graça colado a St Emilion, é a terra do Petrus, La Conseillante, Le Pin e outros nomes que fazem qualquer enófilo se perfilar só de escutar. Neste ponto, vale um comentário: na 1ª semana de outubro é a colheita da uva merlot, predominante em St Emilon e Pomerol, e já deverá ter sido colhida a cabernet sauvignon, predominante na região de Paulliac. Portanto vocês devem ver atividades distintas nessas áreas. Inclusive em Sauternes, se por acaso forem, regiao abaixo de Bordeaux, que nem citei, mas que estará colhento suas uvas brancas aprodrecidas, de onde vem outro ícone – o Chateau D’Yquem. E definitivamente passaria um dia e uma noite na região de Paulliac. Sairia de carro de St Emilion de manhã, atravessava a cidade de Bordeaux e seguiria para Paulliac pela D2. E iria fazer uma visita a um chateau de verdade. Um dos que aceitam é o Mouton Rothschild – um dos 5 grandes “crus classés” que faz uma visita guiada, que apesar de meio turistica (tem filminho no começo e lojinha no final!) é maravilhosa e dá uma idéia do que é um vinhedo de verdade. Precisa reservar (veja no link anexo o tel, se vc não conseguir eu ajudo) e no fim tem degustação, com direito a cuspir na pia e tudo o mais….imperdível. Depois disso, eu iria a St Julien almoçar. Um dos vinhedos de lá é o Gloria, que não sei porque vc vai gostar. Lá tem o Le Saint Julien Restaurant (tel 05 56 59 63 87) que faz um cordeiro – o famoso agneau de Paulliac, que muitos falam que é o melhor do mundo. O lugar é simples, e o prato é absolutamente divino. Não muchibem e peçam um bom vinho de St Julien ou Paulliac para acompanhar. Vai custar uns 120 euros a garrafa, mas vocês nunca mais vão esquecer, prometo. Depois, à tarde, sigam pela D2 até St Estephe, devagar, vendo os castelos se seguirem uns aos outros como se fosse um cardápio de restaurante: Leoville Las Cases, Poyferré, Pichon Lalande, a torre do Latour, Lafite Rothschild, Ducru Beaucaillou, etc, chegando até o Cos de Estournel en St Estephe e pronto…você passou pelo mistico terroir do left bank. Não se inibam em desviar da estrada e entrar em algumas propriedades até a porta dos castelos…vale a pena e eles não se importam ( a não ser se estiverem trabalhando na área). E ver os tais pedregulhos na terra (os “graves”) responsáveis pelo gosto mineral tão característico dos bordeaux. Se quiser visitar outro castelo bem bonito, vá ao Chateau Beychevelle, conhecido como o Versailles de Bordeaux…lá eles tem um jardim maravilhoso para passear, e não precisa reservar. No fim da tarde, siga para o grand finale: um jantar e uma noite no Cordeillan-Bages, o tal 2 estrelas que falei. Hospedem-se lá, e antes de começar a orgia, peçam para os levarem a Bages, uma cidadezinha abandonada atrás do hotel, que o Jean Michel Cazes comprou e está reformando inteira. Tem um café simpático, e umas lojas de artistas plasticos locais interessantes. Quando estiver escurecendo é hora de voltar ao hotel e viajar no menu degustação do tal Thierry…E bons sonhos!

Onde comer em St Emilion: o restaurante do Hostellerie é 2 estrelas Michelin, mas meio pomposo e previsível (e caro), mas um 2 estrelas sempre é um 2 estrelas… Na cidade (que tem 3 ou 4 ruas no máximo) tem vários bistros charmosos e baratos…fomos num, chamado Le Tertre, bem gostoso, a 2 quadras do hotel. A cidade de Bordeaux: claro que vale a pena conhecer Bordeaux, uma típica cidade europeia, com inúmeras construções e museus importantes (e uma rua Sainte Catharine, se não me engano, onde tem mais de 1 km de lojas de grifes) e um espirito de cidade jovem, das artes. A questão dos vinhos: em Bordeaux, peça os de Bordeaux. Os tintos de St Emilion em geral são mais rusticos. Os de St Julien e Paulliac, mais equilibrados. Como eles bebem esses vinhos muito jovens (até de 2003, um infanticídio!) eles são poderosos. Peçam sempre para decantar e esperem 15 minutos para beber. Sauternes são todos bons e muitos deles, baratos. Nunca mais que ½ garrafa, enjoam….são ótimos na sobremesa ou com queijos. Brancos secos, são também muito bons, mas dispensáveis. Espero que vocês aproveitem. E se embriaguem com a beleza de lá. Tenho certeza que quando vocês voltarem de lá vão entender porque para mim, bordeaux sempre foi muito chic! Um beijo, Pedro.

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A história dos Premier Cru de Bordeaux

Um bom amigo, oPedro Assumpção, sujeito falante e com muito conteúdo, sobretudo quando o assunto é vinho, recomendou o livro “1855: A History of the Bordeaux Classification”. Você pode encontrar este livro na Amazon por US$ 80, mas talvez possa encontrar um exemplar aqui na Livraria Cultura ou na Fnac.

1855

A venda na Amazon

Vamos a um resumo da história que o Pedro contou:

Em 1851, o Príncipe Albert of Saxe-Coburg and Gotha desenvolveu em Londres  The Great Exhibition of the Works of Industry of all Nations ou Great Exhibition. Esta feira mundial de produtos e realizações da Inglaterra mostrava ao mundo o poderio inglês na indústria. O próximo evento deveria ocorrer na França em 1854, mas por alguma questão, acabou ocorrendo em 1855, precisamente no dia 15 de novembro em Paris.
Napoleão III ordenou que fossem classificados os melhores produtos da França para a apresentação nesta Exibição e assim foi criada a classificação oficial de Bordeaux, que permanece até hoje.  O sistema de classificação levou em conta a reputação dos Chateauxs e o preço de mercado dos vinhos, de tal sorte que os vinhos com maior preço de mercado foram listados como Premier Cru, o segundo lote como Deuxièmes Crus e assim por diante.
Apenas 4 vinhos foram classificados como Premier Cru, sendo que em 1973 essa lista foi revisada e o Chateau Mouton Rothschild foi promovido.

Veja os rótulos abaixo e acompanhe aqui no NOSSO VINHO, durante este fim de semana a história de cada um destes.

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Lafite

CHATEAU LAFITE ROTHSCHILD, originalmente Chateau de La Fite, Lafite.

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Haut Brion

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Maurgaux

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Latour

 

O Mapa do vinho em Bordeaux

Os rios Garonne e Dordogne cortam Bordeaux em sentido noroeste em sentido ao Atlântico, dividindo a região em três segmentos: a oeste do Garonner ficam os vinhedos da margem esquerda de Medoc, Graves e Sauternes. A lesle do Dordogne fica a área da margem direita, incluindo St-Émilion, Pomerol e Fornsac; no meio fica a faixa de terra chamada Entre-Deux-Mers, literalmente “entre dois mares” [Informações retiradas do Guia Ilustrado Zahar – Vinhos do Mundo Todo.]

Mapa

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Neste link você tem um mapa ainda mais completo para entender a região:

http://technoresto.org/vdf/bordelais/index.html

 

Conheça um pouco sobre o Pomerol

Pomerol é uma micro-região de Bordeaux com cerca de 800 hectares de produção, mas cada produtor tem em media apenas 6,5 hectares, logo com uma produção bastante limitada. E de preços altos. O tipo de solo favorece a produção de Merlot. Pomerol está localizada em um platô a nordeste da cidade de Libourne. Os melhores vinhos vêem da parte central do Pomerol, onde encontramos Pétrus, Lafleur e Le Pin. Informações do Guia Zahar Vinhos do Mundo Todo.
Segundo Jancis Robison: “Pomerol é um canto curioso do mundo onde é difícil orientar-se. Não existe um verdadeiro centro da Vila. Pequenas estradas quase idênticas cruzam o planalto em quase todas as direções, aparentemente sem sentido. Cada família parece produzir um vinho, e todas as casas destacam-se entre as suas vinhas. A paisagem é salpicada com casas modestas, cada uma regozijando-se com o nome de Chateau. Estranhamente, até a igreja fica isolada, como se fosse outra propriedade vinícola.

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Chateau Petrus

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Petrus

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Pomerol, França

 

Conheça um pouco de Sauternes

Este é um dos melhores vinhos doces  do mundo, produzido em Bordeaux, na cidade de Sauternes e região, que compreende as cidades de Fargues, Bommes, Preignac e Barsac. Veja no mapa abaixo.

Sauternes

As cepas do Sauternes são Sauvignon, Semillon e Muscadelle. Fazem um vinho dourado, com toques de avelã. A qualidade dos vinhos de Sauternes melhorou bastante nos anos 90 com a introdução de barricas novas de carvalho, que eram raras na região.

A Classificação de Sauternes

A Letra B significa que o vinho provém de Barsac, que pode utilizar tanto a denominação Barsac como Sauternes. A ordem de classificação é a mesma desde 1855.

Premier Cru Superior: Chateau D’Yquem

Premiers Crus: Chateau Latou Blanche  / Chateau Lafaurie-Peyraguey / Clos Haut Perayguey / Chateau de Rayne-Vigneau / Chateau de Suduiraut / Chateau Coutet (B) / Chateau Climens (B) / Chateau Guiraud / Chateau Rieuseec / Chateau Rabaud-Promis / Chateau Sigalas-Rabaud

Segundos Crus: Chateau de Myrat (B) / Chateau Doisy-Daene (B)) / Chateau Doisy-Dubroca (B) /  Chateau Doisy-Vendrines (B) / Chateau d’Arche / Chateau Filhot / Chateau Broustet (B) / Chateau Nairac (B) / Chateau Caillou (B) / Chateau Suau (B) / Chateau de Malle / Chateau Romer du Hayot /  Chateau Lamothe / Chateau Guignard-Lamothe.

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