Bom Amigo, Vinho! Por Victor Batista. Concurso Cultural NOSSO VINHO

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Inscrição no Concurso Literário NOSSO VINHO.

Por Victor Batista, Barreiro – Portugal.

Não me custa nada dizer que tinha convidado a minha colega Maria M., que estava separada do marido ainda não tinha feito meio ano, para ser a minha companhia naquele suave fim de tarde já em plena queda da folha, na visita que pretendia fazer ao bar 1922. Tudo porque, e sem qualquer segunda inten-ção, me apetecia tomar uma “cup” de um vinho branco fresco de boa qualidade e ter alguém a meu lado para trocarmos algumas palavras, que por certo dariam entrada a uma inesperada e boa conversa. Mais ainda porque o bar 1922, assim chamado desde o ano da sua abertura, era um requintado espaço de con-vívio, onde a clientela, não parecendo, era quase toda ela seleccionada por via do seu aparente estatuto social, da sua formação académica e da sua bem recheada carteira.

O 1922 mantinha a traça inicial, o mobiliário de origem, feito na chamada madeira africana sempre de excelente qualidade, bem como uma série de outros apetrechos, também eles ao serviço desde o dia que abríu portas pela primeira vez. Até mesmo um dos empregados que ainda se mantinha em funções, era quase quase de origem do 1922, pois trabalhava no bar à perto de 50 anos. Das poucas modificações que lhe foram introduzidas, ressaltam os sanitários e a nova intalação eléctrica, que foi concebida de a-cordo e seguindo os padrões mais utilizados em bares, dancings e afins. Estas alterações, levaram ao aparecimento de dois ou três lugares para serem usados com muito mais recato e discrição. Não sei qual a razão, mas eu e a minha colega Maria M. tomámos a nossa “cup” num destes locais mais escondidos. Para ser sincero, à parte a graciosa companhia, de tudo o resto nada fazia o meu jeito nem mesmo o tal vinho branco fresco, que não passava duma verdadeira zurrapa. Não tinha gosto nem sabor, era servido de garrafa já antes encetada, mas valia o desembolsar duma nota gorda.

Bem podia ter começado por dizer que todas as tardes, a minha tertúlia de amigos se reúne na taberna junto à estação de camionagem, para dar dois dedos de conversa e tomar os habituais copos de vinho tinto. O local, a ninguém parece o que é na realidade tal a limpeza que apresenta e onde apenas o bode-gão mantém o seu desempenho inalterado, pois não lhe falta a camisa cheia de nódoas de vinho tinto. Aqui sim, nesta tasca com boa apresentação o vinho tinto é bom para valer, de boa qualidade, e com um paladar a roçar o excelente, o que me leva a não aceitar petiscar o que quer que seja durante o nosso convívio. De facto e não sendo caso único, é bem melhor sentir todo o prazer que o vinho por si só deixa nas papilas gustativas, cuja sensação não é nada fácil transmitir.

Assim se pode verificar que o vinho pode ser um bom motivo para unir as pessoas. Contudo, ainda há por aí uns quantos machuchos que tudo fazem para que a bebida de amigos não suba ao proscénio. Di-zem, talvez roídos de inveja, que o vinho é demasiado reles para o efeito. Tão só babosices!

Estou do lado do vinho, mas lamento não poder juntar os dois diferentes momentos de trato único e mútuo, que acabei por dar a conhecer. É pena, mas também não se pode querer tudo do bom.

Mas o que vale é o vinho!

Apesar desta verdade, o vinho continua a ser olhado com desconfiança por quem nele vê o pior mal do mundo. A desgraça de homens e mulheres. A separação de casais. O ruír de edifícios familiares. Enfim, é engolir o vinho sem lhe tomar o gosto. É o típico pensar do machucho.

Se bem que por detrás dum qualquer vinho está sempre um bebedor, acontece que grande parte das ve-zes está um mau bebedor. Aqui sim, aqui podem estar algumas dificuldades.

Não me revejo em nenhum dos casos anteriores e estou bem à vontade para a dizer que sou um bom amigo do vinho e que sempre que tal se proporciona não perco uma oportunidade, uma que seja, para satisfazer o meu prazer. Pertenço ao grupo daqueles que olham para o vinho com avidez, que lhe obser-vam a cor, tomam o cheiro e lhe apreciam o paladar, fazendo-o rodar levemente pela boca sem o beber, para no fim o expelirem. É nesta ocasião que se analisam todos as dados e o sensório nos dita a sua de-cisão, que acaba sendo a nossa opinião.

Um verdadeiro ritual!


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