Opinião e Arte no vinho.

Marguerita Bornstein, artista plástica, residente em Nova Iorque e amiga deste blog, estabeleceu contato com João Malheiro Tavares de Pina, proprietário da Quinta da Boa Vista em Portugal. O Intuito de Marguerita era conhecer melhor os vinhos da Quinta da Boa Vista e produzir um trabalho a partir de suas garrafas. Este post retrata o interessante trabalho de Marguerita e nos brinda com o ponto de vista diferenciado de João Malheiro Tavares de Pina sobre a vinicultura.

Verão e Inverno em simultâneo.

Compilação de textos soltos de João Malheiro Tavares de Pina enviados a Marguerita Bornstein.

“Estamos completamente desfasados, a vindima ainda há pouco tempo se fez, o Outono vai frio e chuvoso, bom prenúncio para um Inverno que desejo mais rigoroso ainda. O aquecimento Global…, já nos impôs grandes alterações, o Inverno passado foi dos mais secos que há memória; os nascentes que abastecem de água a Quinta da Boavista, quase secaram e vão demorar a recuperar. Do outro lado, no outro hemisfério, ao Brasil, não tarda chega o Verão. Os meus vinhos, os de Verão só estarão prontos lá para Março, e o Carnaval já correu nas ruas, mas tenho um branco de 2008 para lançar brevemente, um vinho da casta Encruzado com muita mineralidade. Este cobre as estações todas. É um grande companheiro de casamentos de gastronomia elaborada, peixes confeccionados com molhos, com ervas aromáticas, com cogumelos, com frutos secos, etc.”

 

“Relativamente ao “pairing” com a “lemon pie”, nada melhor que um vinho licoroso. Em Portugal fazem-se belos colheitas tardias, vinhos com grandes teores de açúcar, alguns com acidez vibrante indicados para as sobremesas…, os outros não servem para nada.”

 

“Mas podemos falar de Verão, da casta Síria, que dá vinhos com notas citrinas a tangerina e a toranja, ou então de barbecues de carnes deliciosas (e o Brasil, neste particular, tem poucos concorrentes com tamanha qualidade), acompanhados por vinhos tintos tão sólidos como as videiras que os produzem, completamente distintos e diferentes dos vinhos a que habitualmente os consumidores têm acesso. Estamos de costas completamente voltadas para os tradicionalmente consumidos, elaboradas a partir das mais vulgares castas internacionais. O registo é outro. São produções limitadas, elaboradas de castas regionais, autóctones, completamente desconhecidas, e completamente diferentes em aroma e gosto. É esta singularidade que deve ser explorada, a do produto quase inexistente, de carácter único e sem qualquer paralelo. O enófilo, o “gourmet”, gosta de novidades, de coisas diferentes e particulares, de novas experiências que o levem a novas sensações, a novos prazeres.”

 

“O vinho para mim, não pode nunca ser perfeito, consensual e, menos ainda reprodutível. A perfeição (em sentido absoluto), sem pontos de discórdia, sem arestas e agrumes, transforma o vinho em aborrecimento, cansaço, saturação, limitando o prazer, por eliminar completamente os caracteres distintivos que identificam os diferentes estilos. O vinho, o vinho com dimensão, o vinho que nunca esquecemos, vive sobretudo das diferentes sensações que é capaz transmitir, da capacidade que tem para nos surpreender com novas experiências gustativas, da facilidade com que se mimetiza, se transforma e surpreende com novos disfarces que se sucedem à medida que o investigamos, sem nunca permitir que o identifiquemos completamente, para além de que, a percepção destas variáveis sensoriais, nunca é consensual, algo de irrefutável, e, inerente ao carácter subjectivo de qualquer avaliação sensorial… “

“ A reprodutibilidade é uma característica dos produtos globais, dos produtos de massas na sua generalidade, e, naturalmente dos modernos vinhos globais, produzidos nas regiões quentes e planas do mundo a partir das comuns castas internacionais (Francesas mais vulgarmente), cultivadas de forma industrial e antinatural, que fazem furor entre os líderes de opinião e consumidores iniciados, por serem fáceis de abordar, em consequência dos seus perfis unidimensionais, lineares, açucarados e sem complexidade. Nas regiões temperadas, sobretudo nas mais frescas, onde as maturações só se atingem em desespero, os standards obtidos são sempre muito diferentes, e, se ao factor climatérico, associarmos todos os outros relativos ao “Terroir”, com uma enorme variedade de castas em cada parcela de vinha, e ainda a particularidade de nos encepamentos mais velhos não haver qualquer homogeneidade, e cada planta ser uma unidade completamente distinta em dimensão, forma e vigor, maior será a complexidade do vinho obtido e maior a diferença entre colheitas. É possível associar um estilo a um determinado produtor, encontrar um fio condutor entre diversas safras de um mesmo produtor, mas impossível de se impedir que o efeito das variações climatéricas anuais, produza efeitos substanciais no carácter de cada safra, tornando-as completamente distintas…”

“Nunca uma colheita se repetirá. Nunca um vinho será reproduzido. São estes os pressupostos, que cativam e atraem os consumidores mais experimentados, educados e exigentes. Cada vinho, cada colheita, são experiências novas, que evocam sensações diferentes e conduzem a novos prazeres.”

“Um vinho perfeito, todo redondo, todo aveludado, não tem carácter, não desperta a crítica, deixa-nos amorfos, indiferentes. O vinho quer arestas, algumas, sem serem excessivas, com boa acidez, notas de sal por vezes, frescura permanente com taninos evidentes que preparem o palato para receber novos sabores, e estes só se conseguem produzir nas regiões de clima temperado, onde as maturações se atingem, se produzem com dificuldade, em permanente esforço. Quanto mais difícil for a obtenção do correcto e desejado estado de maturação, quanto mais demorada e paulatina for esta fase, maior qualidade terá o vinho. A diferença reside aqui: nas regiões quentes do mundo, as maturações são obtidas de forma abrupta, como num forno a 300ºC, originando vinhos maciços sem elegância, com fruta pesada e muito madura, nas regiões temperadas, com maturações lentas e paulatinas, obtemos uma adequada maturação fenólica com baixos teores de álcool, com fruta fina e intensa, com frescura e elegância, vinhos de carácter para consumidores de bom gosto. Os outros, destinam-se aos rituais de iniciação dos consumidores de coca-cola como refere o Jonathan Nossiter.”

João Malheiro Tavares de Pina

Quinta da Boavista

3550 – 058 Castelo de Penalva

Penalva do Castelo

PORTUGAL

www.quintadaboavista.eu

O Trabalho de Marguerita Bornstein a partir das garrafas da Quinta da Boa Vista.

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Conheça mais do trabalho de Marguerita Bornstein aqui

http://www.thepoignantfrog.blogspot.com/

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